Wall Street espirra e o Brasil pega gripe

EconomiaFIQUE SABENDO

Wall Street espirra e o Brasil pega gripe

 Globalização financeira e o efeito contágio

Foto: GettyImages

Em setembro de 2008, o banco de investimentos Lehman Brothers pediu falência em Nova York. Nas semanas seguintes, bolsas caíam em Tóquio, Londres, São Paulo e Frankfurt. Investidores que jamais tinham ouvido falar dos títulos hipotecários americanos que detonaram a crise viam suas carteiras derreter em moedas completamente diferentes do dólar. O episódio tornou visível algo que economistas já descreviam há décadas. Os mercados financeiros globais estão conectados de maneiras que tornam irrelevante a distância geográfica quando o pânico começa a se mover.

O mecanismo básico do contágio financeiro opera por algumas vias principais. A primeira é direta. Bancos e fundos de investimento ao redor do mundo carregam ativos uns dos outros, de modo que a desvalorização de um papel em determinado país aparece imediatamente no balanço de instituições em outros continentes. A segunda é comportamental. Quando investidores percebem risco em um mercado emergente, tendem a reduzir exposição a todos os mercados emergentes simultaneamente, independentemente dos fundamentos de cada economia, num movimento que os economistas chamam de flight to quality, a corrida em direção a ativos considerados mais seguros, tipicamente títulos do governo americano.

O Brasil ocupa uma posição particular nessa dinâmica. Como economia emergente com mercado de capitais relativamente desenvolvido e moeda conversível, o real funciona como termômetro do apetite global por risco. Quando esse apetite diminui, seja por uma crise nos Estados Unidos, na Europa ou até na China, capitais estrangeiros deixam o país em busca de segurança, o dólar sobe, os juros domésticos sobem junto e a bolsa cai, mesmo que a economia brasileira não tenha nenhuma relação direta com o epicentro do problema.

Esse fenômeno ficou conhecido popularmente como "quando Wall Street espirra, o Brasil pega gripe", expressão que captura a assimetria da relação. Os Estados Unidos, por concentrarem a maior parte dos ativos financeiros globais e emitirem a moeda de reserva internacional, exportam instabilidade com uma eficiência que nenhuma outra economia consegue replicar. A crise de 2008 foi apenas o exemplo mais dramático de uma dinâmica que se repetiu em versões menores na crise asiática de 1997, na crise russa de 1998 e na bolha das empresas de tecnologia em 2001.

A globalização financeira acelerada a partir dos anos 1990 aprofundou essas conexões. A liberalização dos fluxos de capital permitiu que dinheiro cruzasse fronteiras em frações de segundo, o que aumentou a eficiência dos mercados em tempos normais e amplificou o contágio em tempos de crise. O mesmo mecanismo que permite a um fundo de pensão americano diversificar sua carteira com ações brasileiras permite que ele as venda todas de uma vez quando precisa de liquidez, e essa venda coordenada de ativos em múltiplos países é precisamente o que transforma um problema localizado em crise global.

A pandemia de 2020 adicionou um capítulo novo a essa história. Pela primeira vez, o choque inicial não veio do sistema financeiro, mas de um evento sanitário que atingiu todas as economias simultaneamente. Ainda assim, o padrão se repetiu. Capitais fugiram dos emergentes, o real despencou, o Ibovespa ativou o circuit breaker cinco vezes em março daquele ano e o Brasil sentiu com intensidade desproporcional um choque que, em sua origem, não tinha endereço financeiro. A geografia mudou, o mecanismo permaneceu o mesmo.

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Visitante
Quarta, 11 Março 2026

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://www.moneynownews.com.br/