Entenda como a taxa básica de juros do Brasil influencia o crédito, o consumo e os preços no supermercado
alA taxa Selic é, em termos formais, a taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central a cada 45 dias e, na prática, funciona como o preço do dinheiro no país. Quando o Banco Central eleva a Selic, encarecer o crédito é o objetivo declarado e, quando a reduz, o movimento é o oposto. O que raramente aparece nessa descrição é a extensão com que essa decisão, tomada por um grupo de diretores em Brasília, atravessa a cadeia econômica até chegar ao carrinho de supermercado.
O mecanismo começa no crédito, já que bancos comerciais captam recursos a taxas próximas à Selic e emprestam a taxas superiores, incorporando spread, risco e margem. Quando a Selic sobe, o custo de captação aumenta e as taxas ao consumidor final acompanham o movimento. Conforme documentado pelo Banco Central do Brasil em seus relatórios de estabilidade financeira, variações na taxa básica se transmitem ao crédito livre (pessoal, veículos, cartão) em prazos que variam de semanas a poucos meses.
A conexão com os preços no varejo é menos direta, mas igualmente relevante, pois empresas que operam com capital de giro financiado incorporam o custo dos juros em seus preços e varejistas que dependem de crédito para manter estoques repassam parte desse custo ao consumidor final.
Como analisou André Lara Resende em Juros, Moeda e Ortodoxia (2017), a estrutura de juros brasileira historicamente elevada contribui para um nível de custo operacional nas empresas que não encontra equivalente em economias de porte comparável, pressionando preços independentemente do ciclo inflacionário.
A Selic também opera pelo canal das expectativas, de modo que quando o Copom sinaliza uma trajetória de alta, agentes econômicos antecipam crédito mais caro e revisam planos de consumo e investimento antes mesmo que a taxa efetivamente suba. Conforme o Relatório de Inflação do Banco Central, esse canal é considerado um dos mais relevantes na transmissão da política monetária, pois age sobre decisões presentes com base em cenários futuros.
Há, contudo, uma assimetria conhecida nesse mecanismo, já que a alta da Selic desacelera a demanda e, em tese, reduz a pressão inflacionária, mas quando a inflação tem origem na oferta (choques cambiais, custos de energia, quebras de safra), a elevação dos juros age sobre o sintoma sem alcançar a causa, gerando desaceleração econômica sem necessariamente resolver o problema de preços. Como observou Olivier Blanchard em trabalhos publicados pelo Peterson Institute for International Economics, a eficácia dos juros como instrumento antiinflacionário depende criticamente da natureza do choque inflacionário em questão.
A taxa Selic é, portanto, uma variável que redistribui renda entre tomadores e aplicadores de recursos, determina o custo do crédito produtivo e do consumo das famílias e influencia o nível geral de preços por múltiplos canais simultâneos, sendo sua compreensão condição para interpretar a maior parte dos movimentos da economia brasileira.