O que acontece quando um banco central imprime dinheiro
A ferramenta não convencional que mudou a política monetária moderna
Durante décadas, o principal instrumento dos bancos centrais para estimular a economia foi a redução da taxa de juros, que barateia o crédito e, em teoria, incentiva o consumo e o investimento. O problema surge quando os juros já estão próximos de zero e a economia continua estagnada, situação que o Federal Reserve americano enfrentou em 2008 depois que a crise financeira derrubou os mercados. Com a taxa de juros já no limite, o Fed buscou outras ferramentas.
A saída encontrada foi o quantitative easing, ou QE, traduzido livremente como "afrouxamento quantitativo". No mecanismo, o banco central cria dinheiro eletronicamente e o utiliza para comprar ativos financeiros, principalmente títulos do governo e, em alguns casos, títulos privados, diretamente no mercado. A lógica por trás da operação é que, ao injetar dinheiro no sistema financeiro e derrubar as taxas de juros de longo prazo, bancos e investidores seriam empurrados a buscar retorno em ativos de maior risco, elevando seus preços e, pelo chamado efeito riqueza, estimulando o consumo e o investimento na economia real.
O Fed realizou três rodadas de QE entre 2008 e 2014, acumulando mais de 4 trilhões de dólares em ativos. O Banco Central Europeu adotou política semelhante a partir de 2015, e o Banco do Japão já operava em direção parecida desde os anos 1990, durante o período que ficou conhecido como a década perdida japonesa. Entre economistas, o debate sobre a eficácia da medida permanece aberto, com parte dos especialistas apontando que a política teria evitado uma depressão em 2008 e outra parte argumentando que os principais beneficiados foram os detentores de ativos financeiros, aprofundando a desigualdade sem alcançar a economia produtiva.
A reversão do processo, chamada de tapering, é considerada um dos momentos mais delicados da política monetária moderna. Quando o Fed sinalizou em 2013 que começaria a reduzir as compras de ativos, os mercados reagiram com forte turbulência num episódio que ficou conhecido como taper tantrum, com saída de capitais e desvalorização cambial em diversos países emergentes.
A pandemia de 2020 trouxe o QE de volta em escala superior à vista em 2008, com o balanço do Fed ultrapassando 8 trilhões de dólares em 2021. Os programas ajudaram a estabilizar os mercados e a financiar os pacotes fiscais dos governos, mas coincidiram com a alta de preços que se seguiu, recolocando em discussão os limites e os efeitos colaterais de uma política que, diferentemente do que o nome popular sugere, não consiste em distribuir dinheiro à população, mas em operar através do sistema financeiro para tentar influenciar a economia como um todo.
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