Pressão sobre o iene aumenta e mercado já projeta dólar a 165 ienes
Ex-dirigente do Banco do Japão afirma que novos aumentos de juros nos Estados Unidos podem aprofundar a desvalorização da moeda japonesa
A fraqueza do iene voltou a preocupar os mercados globais. Segundo Sayuri Shirai, ex-integrante do comitê de política monetária do Banco do Japão, a moeda japonesa pode se desvalorizar para a faixa de 163 a 165 ienes por dólar caso o Federal Reserve confirme novos aumentos de juros ainda este ano. Se esse cenário se concretizar, o iene atingirá seu nível mais fraco desde 1986.
A avaliação ocorre em um momento delicado para a moeda japonesa. Nesta semana, o câmbio chegou a tocar 161,92 ienes por dólar, renovando mínimas de dois anos e mantendo investidores em alerta para uma possível intervenção das autoridades japonesas no mercado.
Mesmo após o Banco do Japão elevar sua taxa básica para 1%, o maior nível desde 1995, o diferencial de juros em relação aos Estados Unidos continua favorecendo o dólar. Enquanto os juros japoneses permanecem em patamares historicamente baixos, a taxa americana segue entre 3,50% e 3,75%, ampliando a atratividade dos ativos denominados em dólar.
A diferença entre os juros das duas economias continua sendo o principal fator por trás da desvalorização da moeda japonesa.
A chegada de Kevin Warsh ao comando do Federal Reserve reforçou essa tendência. A postura mais firme adotada pelo novo presidente reacendeu as expectativas de aperto monetário nos Estados Unidos. Atualmente, o mercado já precifica uma probabilidade próxima de 75% de uma alta de juros em setembro, além da possibilidade de novos ajustes até o fim do ano.
Nem mesmo a recente queda dos preços do petróleo, impulsionada pelo avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, conseguiu aliviar a pressão sobre o iene. Para Shirai, isso mostra que os investidores continuam concentrados principalmente na diferença de juros entre os dois países.
A ex-dirigente acredita que o Banco do Japão ainda poderá promover mais uma alta de 0,25 ponto percentual entre outubro e dezembro. Ainda assim, ela considera que o espaço para aumentos adicionais é limitado. Na visão da economista, uma taxa próxima de 1,5% em 2027 já representaria o limite do atual ciclo de aperto monetário japonês.
Outros analistas, porém, enxergam um caminho mais longo. Para Jesper Koll, do Monex Group, os juros japoneses poderiam alcançar algo próximo de 3% até 2028, caso a inflação permaneça sustentada e a economia continue se recuperando.
Além das questões monetárias, investidores também acompanham com atenção o cenário fiscal do Japão. Propostas de redução de impostos e aumento de gastos públicos levantaram dúvidas sobre o equilíbrio das contas do governo, contribuindo para a alta dos rendimentos dos títulos japoneses e adicionando uma nova camada de preocupação ao mercado.
Outro ponto de incerteza é a disposição das autoridades em voltar a intervir no câmbio. Entre abril e maio, o governo japonês gastou cerca de 11,7 trilhões de ienes para tentar conter a queda da moeda. Apesar disso, os efeitos foram temporários e o dólar voltou a se aproximar das máximas recentes.
Com o Fed caminhando para manter juros elevados e o Banco do Japão avançando de forma muito mais gradual, o mercado segue vendo poucos fatores capazes de interromper a pressão sobre o iene no curto prazo.
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