Por que o Bitcoin perdeu metade do seu valor em quatro meses?
Após atingir recorde histórico em outubro de 2025, o Bitcoin acumula desvalorização de mais de 50% em meio a juros elevados, conflitos geopolíticos e fuga de capital institucional
A nova onda de desvalorização das criptomoedas recolocou o mercado digital no centro do debate econômico. Só em fevereiro de 2026, o Bitcoin acumula queda superior a 21% (segundo dados do TradingView), e chegou a operar próximo de US$ 60 mil, muito distante do recorde de US$ 126 mil atingido em outubro de 2025. Ethereum e Solana recuam cerca de 32% no ano, de acordo com o portal Bora Investir, da B3. O índice de medo e ganância do mercado cripto despencou para níveis de pânico extremo, semelhantes aos de 2022.
As criptomoedas nasceram em um contexto de profunda desconfiança no sistema financeiro. Em 31 de outubro de 2008, apenas duas semanas após o governo dos EUA anunciar um pacote de resgate bancário de US$ 2 trilhões, um documento de nove páginas assinado pelo pseudônimo Satoshi Nakamoto foi publicado em uma lista de e-mails de criptografia. Intitulado Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System, o artigo propunha um sistema de dinheiro eletrônico capaz de funcionar sem bancos ou governos. A identidade de Nakamoto permanece desconhecida até hoje.
A tecnologia por trás da proposta é a blockchain: um registro público, distribuído e praticamente imutável de transações, mantido por uma rede descentralizada de computadores. Em janeiro de 2009, Nakamoto colocou a rede em funcionamento ao minerar o primeiro bloco do Bitcoin, que trazia embutida em seu código a manchete do jornal britânico The Times: "Chancellor on brink of second bailout for banks". (Chanceler à beira do segundo resgate aos bancos.)
O que está provocando a queda atual?
A desvalorização não decorre de uma falha no projeto do Bitcoin. Trata-se de uma confluência de fatores macroeconômicos e geopolíticos.
Na primeira reunião de 2026, o Federal Reserve interrompeu o ciclo de cortes de juros. A nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Fed, em 30 de janeiro, reforçou a expectativa de uma política mais conservadora, com menos liquidez no sistema financeiro. Como destacou a professora Elaine Borges, da USP, ao Bora Investir: "há juros altos por mais tempo e capital migrando para ativos mais seguros."
Em outubro de 2025, o anúncio de tarifas de 100% sobre importações chinesas provocou ondas de choque nos mercados. Como o mercado cripto opera 24 horas, absorveu o impacto antes dos mercados tradicionais. Tensões envolvendo Venezuela, Irã e a Groenlândia ampliaram a aversão ao risco.
A Bloomberg reportou cerca de US$ 19 bilhões em posições alavancadas liquidadas após o pico de outubro, a maior onda de liquidações da história do mercado cripto. ETFs de Bitcoin registraram saídas expressivas, e a Binance teve retiradas de US$ 7 bilhões, segundo o Cointimes.
As criptomoedas desenvolveram forte correlação com ações de tecnologia nos EUA. Segundo Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, o Bitcoin passou a compartilhar tanto as altas quanto as correções do setor tech.
O que dizem os especialistas?
A avaliação predominante é a de que o movimento reflete um ajuste dentro do ciclo, e não uma ruptura estrutural. Valter Rebelo, da Empiricus, classificou o cenário como uma "rotação de carteira". Alexandre Vasarhelyi, da B2V Crypto, lembrou que quedas de 70% a 80% já ocorreram no passado e que a correção atual, de cerca de 50%, é a menor da história do Bitcoin em termos percentuais. Guilherme Prado, da Bitget, resumiu no evento Onde Investir 2026: o Bitcoin não morreu, o que houve foi uma mudança de humor.
Enquanto os preços caem, a infraestrutura institucional avança. No Brasil, o Banco Central implementou as Resoluções 519, 520 e 521, criando as primeiras regras abrangentes para prestadoras de serviços de ativos virtuais, com exigências de governança e capital mínimo.
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